segunda-feira, 7 de junho de 2010


Daqui a pouco vai amanhecer. Há um vago cheiro de mar solto nas ruas.
Hesito um pouco na esquina. Antes de me pôr a caminho, abro devagar e completamente os braços para depois fechá-los arredondados, tocando suavemente as pontas dos dedos de uma das mãos nas pontas dos dedos da outra. Como se faz para abraçar uma pessoa. Mas não há nada entre meus braços além do ar da manhã. Suspiro, sorrio, desfaço o abraço.
Então, com as mãos vazias, finalmente começo a navegar.

CF.
Volta, quis dizer, parado no meio da praça.
Mas agora, tantos anos depois, não saberia se teve mesmo vontade de chamar ali, ao meio-dia de uma tarde de Peixes, ou se repetiria depois baixinho, à noite, sozinho na cama, no mesmo quarto com o irmão mais velho, nessa noite ou em todas as outras depois dessa, à medida que o verão fosse indo embora e as noites todas se tornassem mais e mais frias, junho julho, agosto adentro, enrolado em cobertores, vida afora repetindo volta, Beatriz, volta que eu cuido de ti e dou um jeito qualquer de tu ficares boa e então nós podemos ir embora para a África ou Oceania ou Eurásia ou qualquer outro lugar onde tu possas ficar completamente boa do meu lado e para sempre, volta que eu te cuido e não te deixo morrer nunca. Não disse nada. Pisando lenta, olhando o sol, Beatriz foi embora para sempre dos doze anos de vida dele.

CF.

terça-feira, 1 de junho de 2010


Você poderia estar feliz, e eu sem saber, mas você não estava feliz no dia que te vi partir. E agora, todas aquelas coisas que desejei não ter dito são tocadas nos meus lábios, até o momento que se torna loucura em minha cabeça. Já é muito tarde pra te lembrar de como nos éramos, mas não nossos últimos dias de silencio, gritando, obscuros...Quase tudo de que lembro, me da certeza. Eu devia ter te parado ao passar porta afora.
Você pode ser feliz, eu espero que você seja. Você me fez mais feliz do que tinha sido até então. De algum jeito tudo que tenho cheira a você, e por um minúsculo momento é tudo mentira.
Faça as coisas que você sempre quis, sem eu ali para te segurar, não pense, apenas faça. Mais do que qualquer coisa, agora eu quero ver você partir.
Morda gloriosamente um pedaço do mundo.

Lá vem ela. Eu a espero desde a eternidade.
Seus passos tristes, doloridos, comovem os meus ouvidos renascidos.
O dia amanheceu, mas seu coração ainda jaz nas trevas. Ela vem em minha busca.
Ela procura no vazio a plenitude, procura entre os mortos EU que vivo.
Ela vem antes de todos e me ama mais que todos, eu a amo também.
Quando me olhava sem me ver, e quando me disse que carregaria meu corpo se por ventura, eu, o suposto jardineiro, o tivesse roubado.
Não resisti ao seu amor e pelo nome a chamei. Neste instante o sol despontou em seu peito. A vida ressurgiu em sua face enlutada.
Ela me viu. Eu a vi. Minha ressurreição já não era só minha. Era dela. E ressuscitada a enviei para anunciar aos anoitecidos que o Sol do Amor renasceu.

''São paulo. Cinco e três da manhã sinto a ferrugem, o telefone continua calado.
Chego em casa, tomo meu uísque e alimento mais a minha solidão.
O gosto amargo insiste em permanecer em meu corpo, que está nú e gelado com o peito ardendo, gritando por socorro prestes a cair do 14º andar. A sacada é curta, o grito é inevitável.
Eu vou acordar os vizinhos, eu vou riscar os corpos, eu vou te telefonar e dizer que eu só preciso dormir.''
Imagem: Samuel W.

''Eu aprendi a andar; por conseguinte corro. Eu aprendi a voar; portanto não quero que me empurrem para mudar de lugar.
Agora eu sou leve, agora eu vôo; agora vejo a mim mesmo por baixo de mim, agora dança em mim um Deus.''

''As almas frias, os cegos e bêbados não têm o que eu chamo de coração. Coração tem aquele que conhece o medo, más domina o medo; o que vê o abismo, mas com arrogância. O que vê o abismo, mas com olhos de águia; o que se prende ao abismo com garras de águia: este é o corajoso.''

Assim falou Zaratustra. (Nietzsche)

"Quando percebi, estava olhando para as pessoas como se soubesse alguma coisa delas que nem elas mesmas sabiam. Ou então como se as transpassasse. Eram bichos brancos e sujos. Quando as transpassava, via o que tinha sido antes delas, e o que tinha sido antes delas era uma coisa sem cor nem forma, eu podia deixar meus olhos descansarem lá porque eles não se preocupavam em dar nome ou cor ou jeito a nenhuma coisa, era um branco liso e calmo. Mas esse branco liso e calmo me assustava e, quando tentava voltar atrás, começava a ver nas pessoas o que elas não sabiam de si mesmas, e isso era ainda mais terrível. O que elas não sabiam de si era tão assustador que me sentia como se tivesse violado uma sepultura fechada havia vários séculos. A maldição cairia sobre mim: ninguém me perdoaria jamais se soubesse que eu ousara.Ninguém me perdoaria se soubesse que eu sei o que elas são, o que elas eram."

Caio F.

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E digo no meu inglês péssimo que se a realidade nos alimenta com lixo, a mente pode nos alimentar com flores.